LACTEC desenvolve nova tecnologia de espaçadores de fios para distribuição de energia elétrica

Seção Entrevista - Entrevistas

A produção, o fornecimento e a distribuição de energia elétrica tem sido um tema debatido intensamente nos últimos tempos. Diante de uma necessidade cada vez maior de garantia energética para manter o setor produtivo ativo, as concessionárias se veem em uma posição difícil de garantir o fornecimento e tentam reduzir as perdas de energia ao longo da transmissão.

Pensando nesta problemática, o Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento Lactec criou um novo tipo de espaçador de fios de alta tensão que fazem a transmissão da energia elétrica entre as usinas geradoras e as subestações de retransmissão para o consumidor final. A nova tecnologia, desenvolvida em parceria com a empresa Feergs, permite a diminuição da perda de energia e redução de custos.

Nesta entrevista, o coordenador do projeto e pesquisador do Lactec Edemir Luiz Kowalski explica o funcionamento dos espaçadores e como foi possível desenvolver esta nova tecnologia dentro do Brasil.

Pesquisador explica as funcionalidades do REGBT - Foto: Ascom LactecO Lactec  levou quatro anos para desenvolver a nova tecnologia de espaçadores de fios para a distribuição. Como foi esse processo?

Com relação ao desenvolvimento da pesquisa, pode-se separar a mesma em oito fases. A primeira focou-se o desenvolvimento do projeto conceitual balizado em alguns aspectos técnicos: buscar desenvolver um produto que dispensaria a utilização dos caminhões para a instalação na rede; ser instalado e retirado a partir do solo por meio de bastões de manobras por um único eletricista; garantir a segurança do eletricista comparada às técnicas atualmente aplicadas para instalação dos produtos atualmente disponíveis.  Nesta fase foram desenvolvidos quatro projetos conceituais até se obter o projeto do produto.

Na segunda fase foram realizadas simulações e cálculos dos esforços mecânicos ao qual o espaçador estaria sujeito. A terceira fase do projeto foi dedicada a simulações de campo elétrico para avaliar se a geometria do espaçador projetado teria pontos que facilitassem a formação de processos de trilhamento elétrico.

A quarta fase do trabalho focou o estudo dos materiais poliméricos que poderiam ser aplicados na confecção do produto de forma a atender as características levantadas nas fases anteriores. Após estes testes foram selecionadas duas formulações que seriam aplicadas nos primeiros protótipos. A quinta fase contemplou a confecção da matriz para a injeção do espaçador com as formulações selecionadas bem como a confecção de 200 unidades protótipos.

Na sexta fase do trabalho foram realizados ensaios elétricos e mecânicos nos protótipos em condição novos  e envelhecido em laboratório. Os resultados mostraram necessidade de algumas alterações que foram realizadas obtendo-se um novo protótipo. Este novo protótipo passou pelos mesmos testes e assim obteve-se o protótipo final.

Na sétima fase foram confeccionados protótipos e os mesmos foram instalados em campo nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil, em regiões onde as condições ambientais eram extremas em termos de salinidade, umidade e poluição industrial. A cada dois meses eram retirados os espaçadores de campo e realizados a mesma bateria de ensaios elétricos e mecânicos. Este processo de testes em campo, em redes de distribuição de concessionárias distribuidoras do Brasil levou um ano. Os resultados finais obtidos mostraram que o produto desenvolvido atendeu às condições necessárias para o espaçador de fases de redes de baixa tensão.

A oitava fase consistiu da conclusão do projeto e entrega do produto para a Feergs apresenta-lo ao mercado.

Quais foram as inovações concebidas no produto?

Ele pode ser instalado e retirado do solo,  por um único eletricista, sem impedimentos de terreno, arborização. Além disso, não necessita a utilização de um caminhão que implica em  haver impedimentos nas vias públicas, o que favorece  a mobilidade urbana, evita a poluição atmosférica pela queima de combustível e contribui para a redução da poluição sonora.

O  eletricista se encontra em solo, longe dos cabos energizados, eliminando os riscos de acidentes por contato com os cabos (choques elétricos) e evita quedas de cestos aéreos  de caminhões, fatos estes responsáveis por boa parte de acidentes com eletricistas.

Outro ponto importante é que os materiais aplicados neste espaçador  foram  projetados para atender as necessidades levantadas, sendo um diferencial em relação a outros produtos. O produto passou por uma  bateria de ensaios elétricos e mecânicos em condições aplicadas a materiais e equipamentos aplicados em redes de média tensão.

Como foi possível reduzir o tempo de instalação dos espaçadores na rede elétrica de 16 minutos para dois minutos? O processo também passa por processo de patente?

Com apenas um eletricista, do solo, uma vara de manobra telescópica e um cabeçote de manobra automático encaixa-se os “REGBT’s” e instala-se imediatamente após aproximação na  rede de baixa tensão desregulada,  levando em média dois minutos. Ressalta-se que tipos de  terreno, arborização, veículos estacionados, ruelas etc, não impedem a instalação do espaçador desenvolvido.

Em um dos estados da técnica atualmente aplicados, utiliza-se um caminhão próximo à rede,  deve-se manobrá-lo, isolar a área de trabalho. O eletricista deve subir no cesto aéreo do caminhão com seus EPI,s, se elevar até a rede e manualmente  (amarrando-o) colocar o espaçador de fases. Dependendo do tamanho da lança do caminhão, consegue-se instalar até três espaçadores. Este processo leva em média 16 minutos para cada espaçador com equipes muito bem treinadas.

O produto desenvolvido teve um pedido de Registro de Desenho Industrial em 10/07/2012 e um depósito de pedido de patente na mesma data realizados junto ao INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial].


Os testes de campo já iniciaram. Os espaçadores já poderão ser comercializados a partir de agora ou será necessário mais tempo para análises? Em quanto tempo eles poderão ser produzidos em larga escala?

Os testes  de campo foram realizados durante parte de terceiro e quarto anos do projeto tendo sido avaliados ao longo de 12 meses nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul em redes de distribuição reais das concessionárias. Os produtos se encontram prontos para serem comercializados em larga escala.

A redução do preço final para instalação também é um atrativo para o produto, mesmo com o preço da peça sendo mais alto que o modelo usado atualmente. Como foi feito esse cálculo e qual a expectativa de aceitação do mercado frente a esses valores?

Inicialmente, o grande desafio do projeto, era  disponibilizar ao mercado  um equipamento ou produto tão abrangente que necessariamente  teria um valor maior, com força comercial. Isto gerou um desconforto inicial, pois ainda não derrubamos a barreira na  interpretação de custo-benefício em diversos itens oferecidos à nós como consumidores.

Contudo, mesmo não tendo acesso a algumas informações de custo de equipamentos com seus valores, custo de homem/hora nas diversas equipes das  concessionárias, fomos agraciados em caráter extraofical, por duas companhias de energia elétrica, uma da região Sul e outra do Nordeste, com um demonstrativo que afirma  que nosso produto, “REGBT”, tendo um valor venal de R$ 15 por peça, ainda assim, seria atrativo, devido à relevância dos custos embutidos nos outros estados da técnica. Esta comparação foi feita contra um produto de preço de aquisição de R$ 4,23.