Diretor-geral da ABTLuS, Carlos Aragão, é o novo entrevistado da Seção Impressão

Seção Entrevista - Entrevistas

Eleito em agosto para o cargo de diretor-geral da Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS), Carlos Alberto Aragão de Carvalho Filho conta os desafios e o dia a dia à frente da primeira Organização Social (OS) do país. Sediada no campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), a ABTLuS é responsável pela gestão de quatro laboratórios nacionais: o Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS), o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano).

As quatro unidades construídas com dinheiro público são abertas ao uso da comunidade acadêmica e empresarial. Elas contam com 578 colaboradores. São 361 funcionários, sendo 57 pesquisadores doutores, 75 tecnologistas, entre outros, aos quais se agregam 139 bolsistas, 59 estagiários e pesquisadores associados.

Para Carlos Aragão, o projeto Sirius, a nova fonte de Luz Síncroton que está sendo construída, pode render o primeiro Nobel brasileiro. Em entrevista exclusiva ao Gestão C&T online, Aragão fala ainda sobre o modelo de gestão da ABTLuS e sobre a produção científica feita com os equipamentos dos laboratórios.

O senhor é responsável por dirigir um dos maiores centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da América Latina, que tem orçamento anual de R$ 70 milhões. Qual o grande desafio da sua gestão?

Um dos grandes desafios é estreitar a cooperação com o setor industrial. A ABTLuS/CNPEM já tem parceiros importantes como a Petrobras, Braskem, Natura, Oxiteno, entre outras, mas a meta é aprofundar essa relação com empresas de diversos setores como, por exemplo, o de mineração, aeronáutica, energia, fármacos, entre outros.

Outro desafio importante é concretizar o projeto Sirius, a nova Fonte de Luz Síncrotron de 3ª geração, no menor prazo possível. O atual Síncrotron brasileiro foi inaugurado em 1997 e tem características técnicas de uma máquina de 2ª geração.

Apesar de ser fundamental para a realização de pesquisas, a fonte atual possui limitações que inviabilizam a sua utilização em um grande número de aplicações novas, de extrema relevância para futuros desenvolvimentos em ciência e tecnologia.  O Sirius vai assegurar a competitividade do país em áreas portadoras de futuro como nanociências, biologia estrutural molecular, materiais avançados, energias alternativas, entre outros.

O LNLS foi montado em dez anos. Em quanto tempo o Sírius ficará pronto? Qual o investimento previsto?

O Sirius está orçado em US$ 207,3 milhões e, de acordo com cronograma, ficará pronto em 2016. O projeto Sirius é mais ambicioso tecnologicamente do que foi o da atual Fonte Síncrotron que, em 1987, custou US$ 70 milhões. Na época, esse valor correspondia a 0,02% do PIB [Produto Interno Bruto] e a 4,4% dos gastos em C&T. Os investimentos no Sirius equivalem a 0,01% do PIB e a 1,7% dos gastos federais em C&T, em valores de 2010.

O Brasil cresceu, os investimentos em P&D aumentaram significativamente e o país já tem competência para construir um Síncroton com tecnologias inéditas. Vamos manter um bom índice de nacionalização de peças dos equipamentos. O Sirius terá um percentual de nacionalização semelhante ao da Fonte de Luz atual, que é de 85%.

Sabemos que o equipamento será de ponta. Quais os tipos de pesquisa que poderão ser desenvolvidas com essa nova fonte de Luz Síncroton?

A atual Fonte Síncrotron, de 2ª geração, opera com baixa energia e alta emitância do feixe de elétrons, fatores que têm forte impacto no brilho da fonte. Essas dificuldades não podem ser superadas no anel de armazenamento atual e impedem que os pesquisadores se beneficiem de uma das maiores virtudes da utilização de raios X na investigação científica, que é o poder de penetração nos materiais. Com isso, não conseguimos “enxergar” dentro da matéria. Atualmente, a fonte penetra alguns micrômetros em materiais como o aço e concreto.

O Sirius terá raios X dezenas de vezes mais energéticos. Poderemos penetrar nesses mesmos materiais que hoje podemos enxergar e até em matérias de centímetros. O equipamento irá ampliar as fronteiras do conhecimento estrutural de materiais sintéticos e biológicos, permitindo a realização de pesquisas mais avançadas na área de fármacos, energia, microeletrônica, metalurgia, cosméticos, paleontologia, entre outras.

Um exemplo do tipo de investigação possibilitada por um fonte de 3ª geração é o uso de tecnologia de imagem 3D por tomografia de raios X. Ess técnica tem sido utilizada no estudo da osteoporose para mapear as estruturas de lacunas e canículos envolvidos na construção e reparação da estrutura óssea. Com um síncrotron de 3ª geração também será possível fazer o mapeamento tridimensional de trincas e fraturas em metais para analisar a resistência de materiais ou compreender melhor a estrutura atômica, por exemplo, do concreto.

É possível sonhar que desse novo equipamento possa surgir o primeiro prêmio Nobel do Brasil?

O uso de um equipamento como o Sirius poderá, sem dúvida nenhuma, contribuir para descobertas importantes em várias áreas da ciência. Os pesquisadores Ada Yonath, Venkeatraman Ramakrishnan e Thomas Steitz, por exemplo, utilizaram Síncrotrons de 3ª geração para descrever a estrutura molecular do ribossomo e ganharam o Nobel de Química em 2009.

Os equipamentos dos laboratórios são únicos na América do Sul e alguns em até todo o hemisfério sul. O senhor tem números da produção científica desenvolvida nas bancadas dos laboratórios da ABTLuS?

Somente o LNLS recebe por ano 2,7 mil pesquisadores de todo o país e da América Latina. Em média, eles estão comprometidos com cerca de 500 estudos que resultam em aproximadamente 250 artigos publicados nas mais importantes revistas científicas indexadas. Cerca de 20% desses estudos são propostos por estrangeiros. O LNNano recebeu em 2010 cerca de 650 pesquisadores envolvidos com 250 projetos. No LNBio foram atendidas 480 propostas de pesquisa. O CTBE desenvolve cinco programas de pesquisas, mas ainda não está aberto a usuários externos.

Como é a interação dos laboratórios com as indústrias?

Cada um dos quatro laboratórios nacionais tem articulações específicas com o setor produtivo. Essas parcerias são pautadas por orientação do Conselho de Administração. O CTBE tem fortes relações com empresas do setor sucroalcooleiro e com empresas fabricantes de equipamento agrícolas como, por exemplo, a Jacto, fabricante de equipamentos agrícolas; o LNBio é parceiro da Natura e da Braskem no desenvolvimento de novas tecnologias para o setor de cosméticos e de plásticos verdes, respectivamente; o LNLS mantém acordos com empresas como Petrobras, Braskem e Oxiteno; e o LNNano, recentemente instalado, está formando uma rede de contatos com empresas de distintos portes,  interessadas em materiais nano-estruturados.

Agora em outubro, a ABTLuS completou 14 anos como a primeira associação privada sem fins lucrativos qualificada como OS. O sucesso das pesquisas pode ser associado a esse modelo que até então era inovador no país?

O modelo OS garante maior flexibilidade para as ações em ciência e tecnologia, permitindo cumprir de modo mais eficiente o acordado no contrato de gestão com o MCTI. Essa flexibilidade se traduz na possibilidade de contratar e demitir de maneira semelhante à das empresas privadas e de desenvolver um plano de carreira próprio. As OS seguem o próprio manual de compras. Isso permite maior agilidade nos investimentos para modernização da infraestrutura de pesquisa, importação de equipamentos e de insumos de pesquisa e há muitos outros benefícios.

Tanto para os pesquisadores internos como para os usuários externos a flexibilidade gerencial das OS é extremamente vantajosa. Além da agilidade na importação de insumos e equipamentos, as OS podem dar respostas rápidas às demandas de pesquisa e têm grande facilidade em estabelecer intercâmbios com instituições internacionais.

A ABTLuS é uma instituição associada à ABIPTI.

(Felipe Linhares para o Gestão C&T Online)