Brasil tem grande oportunidade de dar um salto tecnológico no setor de alimentos, afirma diretor-geral do ITAL

Seção Entrevista - Entrevistas

O Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) completou 50 anos de existência em 2013. Nesta trajetória, a entidade desenvolveu trabalhos estratégicos para o País em diversas áreas, como na engenharia de alimentos e na ciência e qualidade de alimentos. Apesar da prosperidade da entidade e do setor ser o principal gerador de empregos da indústria nacional, no que se refere ao mercado de alimentos processados, o Brasil não é competitivo nem inovador como poderia ser. Em entrevista ao Informe ABITPI, o diretor-geral do ITAL, Luis Madi, detalha as razões para que o País não seja tão competitivo na área, faz um balanço da trajetória do ITAL neste meio século de existência e enumera os principais desafios que a instituição tem pela frente.

Luis Madi, diretor do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e ex-presidente da ABIPTI. Foto: Divulgação/ItalLuis Madi, diretor do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e ex-presidente da ABIPTI. Foto: Divulgação/ItalO ITAL completou no ano passado 50 anos. Quais foram os principais feitos que o senhor destacaria?

Nos últimos anos, o trabalho do ITAL esteve voltado para os setores de alimentos, bebidas e embalagens. Foram realizados trabalhos junto com o setor privado, em especial com as associações de diferentes setores. Por meio de uma parceria com o Instituto Fraunhofer, da Alemanha, o ITAL criou um centro de pesquisa para atender a demanda da indústria de bebidas, embalagens e alimentos promovendo a inovação nas micro e pequenas empresas (MPEs) do segmento.

Na área de frutas e hortaliças, os maiores desenvolvimentos do ITAL concentram-se na área de palmito, tomate, suco de laranja e coco. A indústria de suco de laranja praticamente nasceu dentro da instituição, contribuindo para todo o avanço tecnológico nos dias de hoje.

Em relação à engenharia de alimentos, o ITAL é a única instituição no Brasil autorizada pela Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês) a realizar curso de alimentos enlatados, desde 1975. Pesquisadores do ITAL estabeleceram padrões de fabricação para garantir a qualidade e a segurança do leite de coco que foram adotados em todo o Brasil e, inclusive, repassados para empresas de países da América Central.

No âmbito de ciência e qualidade de alimentos, o ITAL atuou nos projetos do governo de São Paulo e nos programas Bom Prato e Viva Leite. O Instituto também elaborou um manual de análise microbiológica de alimentos, referência internacional, na versão em português e em inglês, utilizado por um grande número de laboratórios de análise de alimentos.

Para o setor de embalagens, uma série de produtos foram desenvolvidos, entre eles a embalagem flexível termoprocessada, a embalagem de papelão ondulada para frutas e hortaliças, embalagem com atmosfera modificada, a garrafa de vidro de uso exclusivo para cerveja, com foco na segurança alimentar a avaliação de latas eletrossoldadas, programa de análise do ciclo de vida iniciado em 1997 avaliando impactos ambientais de produtos, processos e embalagens e a realização de inúmeros eventos nacionais e internacionais nas diversas áreas do ITAL, e a criação da Plataforma de Inovação Tecnológica com o desenvolvimento da Série Trends 2020.

 

Na sua opinião, como os alimentos processados no País poderiam se tornar competitivos no plano global? Existe um plano de metas estabelecidos pelo Ital para alcançar esse objetivo?

A indústria brasileira de alimentos e bebidas, em termos de produtos, não é tão competitiva nem inovadora quando comparada com as internacionais. Isto, no entanto, cria uma grande oportunidade para o Brasil dar um salto tecnológico para haver mais alimentos nacionais. Segundo a maioria de programas de alimentos e bebidas do mundo, a competitividade do setor só será alcançada por meio do desenvolvimento de projetos de pesquisa e de inovação e a utilização desses em resultados, em especial, para as MPEs.

A grande dificuldade para uma instituição como o ITAL é o financiamento dessas pesquisas por meio das agências de fomento nacionais. O parâmetro mais importante na avaliação dessas propostas tem sido a publicação de trabalhos e a existência de mestrandos e doutorandos nessa área. A nosso ver, deveria haver uma análise do retorno no social, econômico e ambiental desses projetos – em que os grandes beneficiários sejam MPEs – setor que representa aproximadamente 95% da área de alimentos e bebidas do País, com mais de 30 mil empresas. Quem ganhará com isso é a sociedade brasileira.

 

Na sua opinião, como está o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) no setor de alimentos no Brasil? De que forma isso afeta a competitividade deles?

O investimento em PD&I é abaixo da média do setor industrial no Brasil, apesar de o setor de alimentos ser o maior gerador de empregos da área industrial. De acordo com estimativas da Foodand Drink Europe, a Associação das Empresas de Alimentos e Bebidas da Europa, o setor de alimentos no Brasil investe cerca de 0,2% de seu faturamento, contra 0,35% da União Europeia, 1% do Japão, 0,7% da Noruega, 0,6% dos Estados Unidos e 0,5% da Austrália. Existe um consenso nos países mais industrializados de que o fator mais importante em termos de competitividade é a aplicação de pesquisa e inovação e, sendo o foco das agências de fomento no Brasil voltadas para a academia, prejudica a realização de pesquisa e o desenvolvimento de produtos inovadores para o setor industrial no Brasil.

 

Como a tecnologia desenvolvida pelo ITAL pode contribuir para a oferta de alimentos processados no País?

A melhor forma que o ITAL pode contribuir é na realização de pesquisas focando as cinco macro tendências apresentadas no Brasil Food Trends 2020. Os resultados deste estudo revelam as tendências na área da alimentação e seus impactos econômicos, sociais, culturais e políticos. De acordo com o estudo, consumidores mundiais passaram a comer com mais sensorialidade e prazer, saudabilidade e bem-estar, confiabilidade e qualidade, além de segurança e ética. A realização dessas pesquisas focando essas cinco macroareas é essencial para o desenvolvimento tanto de produtos nacionais quanto para a exportação.

 

Quais são os principais desafios do ITAL nos próximos anos?

O ITAL trabalha em três grandes desafios para o futuro. O primeiro é a modernização do modelo jurídico institucional, adequando-o às exigências do mercado e as futuras demandas da sociedade. O segundo é a readequação das agências de fomento, priorizando o desenvolvimento da pesquisa e inovação orientadas para o setor produtivo, visando retorno social, econômico e ambiental para a sociedade brasileira. O terceiro é a colaboração do ITAL no estabelecimento de um programa nacional para o apoio do setor de alimentos e bebida, em que um dos pilares estratégicos seja as área de pesquisa e inovação.