“Em dez anos, seremos o segmento mais brilhante da economia nacional”, projeta presidente- executivo da Abiquim

Seção Entrevista - Entrevistas

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) completou em abril 50 anos de fundação. Ao longo desta trajetória, a entidade contribuiu para diversas situações importantes para o País, como por exemplo a criação do primeiro programa petroquímico nacional. O esforço  da entidade neste meio século contribuiu para o que Brasil ocupasse a sexta colocação entre as maiores potências do setor. Apesar da posição privilegiada, a indústria petroquímica tem potencial para crescer ainda mais.

Fernando Figueiredo, presidente-executivo da Abiquim. Foto: Viola Jr./Câmara dos DeputadosEm entrevista ao Informe ABIPTI, o presidente-executivo da Abiquim, Fernando Figueiredo, destaca alguns dos fatores mais relevantes da história da entidade, explica o que deve ser melhorado no setor para ele se tornar mais pujante e faz uma projeção otimista para o futuro, baseado em cenário otimista.

O que senhor destaca nestes 50 anos de trajetória da Abiquim?

A história da Abiquim esteve sempre muito ligada ao desenvolvimento da indústria química. O primeiro programa petroquímico nacional já foi uma criação dentro da Abiquim. Depois, quando tivemos a criação do Mercosul, em parceria com as Câmaras da Argentina e do Uruguai, a Abiquim foi muito ativa na definição de uma política tarifária para o Mercosul.

Mais recentemente, outro trabalho importante da entidade ocorreu em conjunto com o conselho de competitividade da indústria química. Estamos fazendo um esforço para poder identificar os problemas do setor e construir soluções necessárias para que possamos desenvolvê-lo.

Mesmo o Brasil sendo a sexta maior potência petroquímica do mundo, o País enfrenta diversos problemas e, até recentemente, a própria entidade, em recente audiência pública na Câmara dos Deputados, revelou que existem muitas dificuldades para competir com situações, como o gás de xisto e com o valor elevado do dólar.

Nestes próximos anos, que passos que a Abiquim deve tomar para defender o setor petroquímico brasileiro?

Existem dois pontos fundamentais. O primeiro é o preço da matéria-prima, como a nafta e o gás, mas também de produtos derivados da biodiversidade. Esse aspecto é fundamental. Sem matéria-prima em condições competitivas, em longo prazo, não existe petroquímica.  E a segunda é o custo da energia. Para alguns segmentos da indústria petroquímica, as despesas podem chegar a 60% a 70% [do faturamento]. Então, ter o custo da energia internacionalmente competitivo é importante. No entanto, é ainda mais importante ter a segurança do fornecimento. Não basta apenas ter o preço competitivo. Uma pequena piscada [queda de energia] em uma companhia pode pará-la por dois ou três dias.

Que outras ações são necessárias para o desenvolvimento do setor?

Nós precisamos também melhorar a infraestrutura. É necessário investir mais em pesquisa e desenvolvimento. Nós trabalhamos com o governo, dentro do plano Brasil Maior, em dois projetos que têm todo o potencial para realmente fazer uma revolução na indústria química brasileira.  O estudo de diversificação da indústria química, que está sendo coordenador pelo BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], e a agenda tecnológica setorial de química de renováveis, coordenada pela ABDI [Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial].

Esses dois instrumentos vão dar um conhecimento de mercado, de tecnologias pra o empresariado brasileiro. Eu acredito que as medidas vão permitir a retomada dos investimentos, claro, se a gente tiver matéria-prima e energia a preço competitivo.

Em quanto tempo a indústria química brasileira poderia voltar a ter um papel de liderança mundial? E qual seria o investimento financeiro necessário para isso?

Em primeiro lugar, na indústria química não existe nada de curto prazo. Se você decidir fazer uma planta química hoje, ela vai ser inaugurada em 2018 ou 2019. Demanda todo este tempo porque são investimentos pesados e você tem que ter planejamento e ter garantia do fornecimento de matéria-prima. A minha projeção é que em um horizonte de cinco a dez anos a gente pode retomar isso. Em 2008, a Abiquim organizou um documento chamado “Pacto Nacional da Indústria Química” e nós identificamos naquela oportunidade o potencial de investimento da ordem de US$ 167 bilhões, em um prazo de dez anos. Isso significaria investimentos entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões ao ano. É muita coisa.

Qual o cenário que o senhor vislumbra para os próximos 50 anos da entidade?

Eu não tenho a menor dúvida de que, se conseguirmos equacionar estes problemas, a indústria química será o segmento mais brilhante da próxima década. Temos uma forte base de matéria-prima, não apenas de petróleo e gás, mas também de biodiversidade, de minerais como o quartzo e terras-raras.  Costumo resumir, com todo o respeito à indústria automobilística, que a indústria química tem um potencial para ser o segmento mais importante da economia nacional nos próximos dez anos.