Entrevista com Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa

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"Brasil tem que priorizar a inteligência competitiva", Maurício Lopes/Embrapa.  Foto: Sérgio Almeida/Agência Câmara"Brasil tem que priorizar a inteligência competitiva", Maurício Lopes/Embrapa. Foto: Sérgio Almeida/Agência CâmaraNomeado em outubro como presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Maurício Antônio Lopes, que anteriormente ocupava a diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento da estatal, defende que, para o Brasil avançar, é preciso priorizar a inteligência competitiva.

Em entrevista exclusiva para a Agência Gestão CT&I de Notícias, o titular da Embrapa, que aceitou o convite para representar a vice-presidência da ABIPTI pela região Centro-Oeste, afirmou que os países que avançaram muito têm se preocupado em análises e estudos estratégicos com vistas à antecipação para estarem preparados para as mudanças cada vez mais rápidas de paradigmas.

Com mestrado em genética pela Purdue University (EUA), doutorado em genética molecular pela University of Arizona (EUA) e pós-doutorado pelo Departamento de Agricultura da FAO-ONU (Roma-Itália), Lopes também foi o coordenador responsável pela implantação do programa de cooperação internacional da Embrapa na Ásia, em Suwon, República da Coreia - o Labex Coreia.

Acompanhe a entrevista.

Na sua opinião, em relação a investimentos em ciência, tecnologia e inovação (CT&I), o que falta no Brasil?

Temos que reconhecer que o Brasil avançou muito nas últimas décadas. Alcançamos um patamar de reconhecimento como um país que fez investimento, que reconheceu a importância da ciência, tecnologia e inovação para o seu desenvolvimento. No entanto, quando se avalia países desenvolvidos, que estão fazendo investimentos substanciais em CT&I, percebemos também que há uma ênfase cada vez maior em inteligência competitiva e antecipação, na inteligência estratégica. Os países estão cada vez mais preocupados em estarem preparados para essas mudanças muito rápidas de paradigmas.

A gente vive em um mundo que está em constante movimento. As coisas mudam com muita velocidade, os alvos se tornam cada vez menores, móveis e difusos, e nós cada vez mais temos que estar preparados para lidar com essa realidade de mudanças rápidas, de incertezas e alterações constantes. Não dá para imaginar um futuro de avanços substanciais sem um trabalho forte de estudo e análise.

O Brasil precisa criar uma capacidade forte de antecipação e antevisão. Todos os países que avançaram muito têm feito isso, têm consolidado as suas agências de estudos e análises estratégicas. Países como a Coreia, Alemanha e Estados Unidos sempre dão prioridade a esse trabalho de inteligência e ele se torna cada vez mais importante em um mundo que está mudando e avançando com mais rapidez.

 

E como o Brasil se posiciona nesta questão?

Avançamos no planejamento, mas temos que reconhecer que ainda há um passivo na construção de agendas mais convergentes. Nós temos, sem dúvida, capacidade e uma competência extraordinária no Brasil. Temos excelentes universidades, instituições de pesquisa e desenvolvimento, empreendimentos de grande sucesso, mas sinto que o país poderia fazer muito mais se houvesse um esforço maior e mais continuado na construção de agendas de convergência.

A Frente Parlamentar da Ciência, Tecnologia, Pesquisa e Inovação, relançada no início de dezembro, pode contribuir para esse propósito?

A frente é um caminho importante. É fundamental que o parlamento coloque na sua agenda de prioridades a questão da capacidade de realizar estudos, de fazer antecipação. Nós precisamos fazer esse esforço para saber os futuros possíveis que podemos captar.

O senhor poderia citar alguns dos principais desafios que podem ser antecipados?

Nos próximos anos, vamos nos deparar com desafios substanciais em questões relacionadas à sustentabilidade e ao acesso e uso da base de recursos naturais. O Brasil vai ter que se esforçar no desenvolvimento de soluções e tecnologias que nos ajudem a lidar com o desafio das mudanças climáticas globais. É necessário produzirmos uma “descarbonização” da nossa economia, que ainda é muito dependente de energia fóssil. Outra tendência é um crescimento cada vez mais rápido do processo de urbanização. Isso gera, por exemplo, uma deficiência de mão de obra no campo.

A partir daí temos dois pontos: antecipar que vamos precisar de uma agricultura muito mais dependente de automação e teremos que investir na qualidade de vida do trabalhador, para que ele se disponha a ficar no campo. Só trabalhos de inteligência e de antevisão nos permitem visualizar esses futuros possíveis. Precisamos trabalhar a grande competência que o Brasil tem, seja de pessoas preparadas e capacitadas, seja de instituições, para que a gente comece a se preparar para essa mudança.

Como as entidades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (EPDIs) podem se inserir nesse processo?

Os institutos precisam reconhecer a necessidade de fazer esse esforço. O pior dos mundos é a instituição que não vê como necessário o trabalho de antecipação, de inteligência e de antevisão. Uma instituição que está na CT&I não pode prescindir dessa capacidade. Até porque tudo que uma instituição de pesquisa começa hoje só vai ter impacto no futuro e, às vezes, em um futuro muito distante. Então, precisamos antecipar que futuros são esses para os quais estão sendo geradas inovações para que se façam as escolhas certas e para que estejamos aumentando a probabilidade de que as inovações que nós estamos gerando tenham grande impacto e importância lá na frente.