Presidente do CGEE, Lúcia Carvalho Pinto de Melo, é a nova entrevistada da Seção Impressão

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A presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Lúcia Carvalho Pinto de Melo, faz um balanço de dez anos da atuação da instituição. Ela está à frente do órgão há mais de cinco anos e participou do processo de sua criação, o que lhe confere um lugar confortável para fazer esta análise.

“O trabalho do centro foi fundamental para estabelecer um novo ‘modus operandi’, na construção de políticas e estratégias de C&T no país”, disse em entrevista exclusiva ao GestãoC&T online, no dia 5 deste mês, em Brasília (DF). Ela aponta também os principais desafios do Brasil na área de ciência, tecnologia e inovação na próxima década e diz o que precisa ser feito para manter o ritmo de crescimento alcançado nos últimos anos.

Lúcia Melo avalia, ainda, a proposta de transformar a Finep em um banco. Na opinião dela, não basta ter elevação de recursos se não houver uma base da instituição adequada que garanta a operacionalização da verba no ritmo necessário. Leia a entrevista na íntegra.

A senhora está há cinco anos e seis meses à frente do CGEE. Qual o balanço que a senhora faz da sua gestão e quais os principais resultados alcançados?

Eu fiz parte da primeira diretoria do centro, ou seja, da equipe da gênesis da instituição. Assim, a minha avaliação não é somente dos últimos cinco anos, mas da década. Nesse período, o centro atingiu um estágio importante de consolidação no sistema [Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação]. Foram mobilizados cerca de dois mil especialistas e concluídas ou desenvolvidas de 64 a 90 subações, sendo dois terços delas provenientes do contrato de gestão com o MCT.

Eu poderia apresentar mais indicadores quantitativos, como números de estudos realizados. Entretanto, a minha análise é na perspectiva do intangível, ou seja, não só sobre o que produziu em termos de estudos, mas como contribuiu para alavancar políticas ainda mais abrangentes para ciência, tecnologia e inovação (CT&I).

O centro atuou nesta década em agendas diversificadas, como recursos humanos, planejamento institucional, e diretrizes estratégicas para o Brasil como o mar e ambientes costeiros, bioetanol, mudanças climáticas, e a construção de uma economia verde.

Vale destacar que o apoio irrestrito da alta cúpula do MCT foi fundamental para o desempenho positivo do centro. O ex-ministro Eduardo Campos [2004-2005] teve um papel muito importante em resgatar o CGEE. Sergio Rezende [chefe da pasta de 2005 a 2010] deu as condições necessárias para a consolidação da instituição. O atual ministro [Aloizio Mercadante, que assumiu o ministério neste ano] compreendeu o papel do CGEE muito rapidamente e tem sido um parceiro imprescindível.

Na sua opinião, como evoluiu o setor de ciência, tecnologia e inovação no país e quais as principais contribuições do CGEE nesse contexto?

Reforço que a última década foi a fase de implantação e consolidação de um ator novo no SNCTI. O CGEE foi criado para responder à necessidade associada ao crescimento e à expectativa de modernização do setor, com a introdução da dimensão da inovação como um elemento importante e estratégico para a definição de políticas de ciência e tecnologia.

O trabalho do centro foi fundamental para estabelecer um novo ‘modus operandi’, na construção de políticas e estratégias de C&T no país, em perfeita sintonia com as tendências mundiais, em que a dimensão da ciência e tecnologia é cada vez mais valorizada na definição de diretrizes voltadas para o desenvolvimento econômico e inclusão social.

A atuação do CGEE tem sido fundamental para subsidiar os processos que levam à escolha de políticas de C&T mais abrangentes e de longo prazo. Isso significa que seu trabalho é primordial para distinguir entre o que é importante e o que é urgente. O órgão também faz análises de instrumentos e avalia políticas e programas, apontando como esses mecanismos podem ser aprimorados. A ideia é agilizar ainda mais o processo de construção de uma base de C&T que dê resposta aos desafios brasileiros.

A partir dos diversos estudos realizados pelo CGEE ao longo desta década, com prospecção de cenários futuros, qual o principal desafio para o setor brasileiro de C&T?

Sem dúvida é criar condições mais efetivas para incrementar o processo de inovação nas empresas. O país registrou uma expansão muito favorável da base científica tecnológica. Não vou dizer que o nível já é o ideal, mas é confortável. Trata-se de uma pré-condição absolutamente necessária para que o país possa agora enveredar por outros caminhos.

Desta forma, devemos não só manter essa base científica, como fazer com que as empresas incorporem cada vez mais a questão da inovação, e aí eu me refiro à inovação tecnológica, inovação mais robusta. As empresas precisam inserir a atividade de pesquisa e desenvolvimento (P&D) como algo corriqueiro. Somente assim o país terá condições de alavancar o desenvolvimento sustentável, a geração de riqueza e empregos de qualidade, com agregação de valor a todas as cadeias produtivas.

A Finep anunciou que pretende inverter gradativamente a proporção do crédito direcionado para centros de pesquisa e empresas, que hoje é de 60% e 40% respectivamente, com o intuito de justamente impulsionar a inovação no setor produtivo. Na sua avaliação, esta é uma boa estratégia?

A escala de investimentos em inovação no país, sejam eles públicos ou privados, ainda é inadequada para as nossas pretensões como nação. Temos cada vez mais centros de pesquisa, mas eles ainda são pequenos. Os nossos competidores estão alavancando estratégias de uma forma muito agressiva, com uma base muito mais ampla. Eu acredito que a Finep, ao se transformar numa agência de maior vulto, poderá certamente contribuir fortemente para isso, ou seja, dar escala aos processos de inovação.

Entretanto, é importante lembrar que não adianta ter recursos mais elevados, se não tivermos uma base institucional adequada para fazer com que a operacionalização desses recursos se dê na velocidade e intensidade necessárias. Precisamos de recursos humanos de alta qualificação, universidades bem consolidadas e institutos de pesquisas fortes. Não é possível pensar que as empresas isoladamente serão capazes de dar esta resposta.

Para a senhora, o ritmo de crescimento registrado nos últimos anos, com a elevação da produção científica brasileira e maior investimento de recursos no setor, será mantido nos próximos anos?

A manutenção dos investimentos em patamares elevados vai depender do desempenho da economia brasileira. Também será determinante para a sustentação desse cenário assegurar que parte dos recursos obtidos com a exploração do pré-sal seja direcionada para o setor.

No que se refere à produção científica, os indicadores apontam que o crescimento será mantido. Esse resultado é reflexo de um processo de avaliação rigoroso que tem acontecido, por exemplo, nos cursos de pós-graduação. É preciso manter esse ritmo.

Atingimos uma posição confortável, agora precisamos ter metas de médio e longo prazos para atingirmos patamares ainda mais elevados e criar condições mais favoráveis para a realização de pesquisa. Neste sentido, é fundamental a internacionalização da agenda da pesquisa, com maior fluxo de pessoas indo para fora do Brasil e também de absorção de pessoas do exterior. Este é um movimento que pode ser feito tanto por universidades, como por empresas.

Na sua avaliação, quais os desafios do novo presidente do CGEE, Mariano Laplane, para fortalecer a atuação do centro em nível nacional e internacional?

O Conselho de Administração fez uma escolha muito acertada. O professor Laplane tem um perfil bastante adequado, com grande experiência em política industrial e de inovação, o que permitirá ao CGEE dar saltos ainda maiores na construção de agendas estratégicas para CT&I.

Quais os seus planos para o futuro?

Eu voltarei para Recife (PE) e vou continuar a trabalhar com ciência e tecnologia.

(Cynthia Ribeiro para o Gestão C&T online)