Secretário-geral da 4ª CNCTI, Luiz Davidovich, é o novo entrevistado da Seção Impressão

Seção Entrevista - Entrevistas

O secretário-geral da 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (4ª CNCTI), Luiz Davidovich, apresenta, em entrevista ao Gestão C&T online, os principais desafios na condução do evento e medidas que considera importantes para um próximo plano de ação na área de CT&I. Para ele, a inovação, associada às atividades de pesquisa e desenvolvimento nas empresas, é o motor do desenvolvimento no mundo atual.

O ministro da C&T, Sergio Rezende, tem reiterado a importância de transformar a política de CT&I do país em uma Política de Estado. Na visão do senhor, quais são as contribuições da 4ª CNCTI para atingir esse objetivo proposto?

A 4ª CNCTI pode contribuir identificando questões estratégicas para o desenvolvimento sustentável do país e construindo um consenso em relação a como enfrentar essas questões nos próximos governos. Para isso, é importante que ela seja de fato uma conferência da sociedade brasileira, uma oportunidade para que os diversos setores que se relacionam à CT&I possam contribuir com a formulação de um plano estratégico para os próximos anos.

Quais são os principais desafios que o senhor espera enfrentar na condução da 4ª CNCTI?

Em primeiro lugar, há o desafio de mobilizar a sociedade brasileira em relação a esse tema, aproveitando a oportunidade da realização da 4ª CNCTI para discutir e veicular a importância da ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento do país. Além disso, precisamos elaborar um programa para a 4ª CNCTI que responda aos anseios de diversos setores e que identifique os grandes temas que deverão ser enfrentados nos próximos anos. Há também o desafio de dar seguimento aos debates e às propostas da 4ª CNCTI, de modo que as discussões não se limitem a esse evento.

O que o senhor poderia apontar como diferença ou mesmo destaque deste evento em comparação às edições anteriores?

Há uma diferença óbvia, decorrente do fato de que mudou o cenário internacional, desde a última conferência, realizada em 2005 e, além disso, no plano nacional pudemos experimentar a eficácia de novos instrumentos de apoio à inovação e à P&D, como a Lei de Inovação e a Lei do Bem.

No âmbito internacional, emergem novos desafios, decorrentes da crise econômica global, que ainda não foi superada, e de indicadores alarmantes sobre as consequências climáticas da atividade humana. Vários países consideram que o investimento em CT&I é o melhor caminho para vencer esses desafios. Fontes alternativas de energia são pesquisadas e o desenvolvimento sustentável torna-se um item obrigatório na agenda internacional, abarcando não só a dimensão econômica e ambiental, mas também a social. Embora esse já fosse um tema da conferência anterior, ele ganha agora uma dimensão muito maior.

A participação de entidades representativas como a ABIPTI, a Anpei e a Anprotec é importante na condução da 4ª conferência? Como essas entidades podem contribuir para a continuidade do debate?

Essas entidades certamente serão representadas nos debates que ocorrerão na 4ª CNCTI. Mas é importante que esses debates não se limitem aos três dias da conferência, que essas entidades promovam reuniões para levantar os temas relevantes nas áreas em que atuam. Isso contribuirá para aumentar a qualidade da participação dessas instituições na conferência nacional.

À frente da 4ª CNCTI, quais medidas o senhor consideraria importantes para um próximo plano de ação na área de CT&I como forma de alavancar o desenvolvimento sustentável do país?

Não gostaria de me adiantar às conclusões da 4ª CNCTI, cujo objetivo é justamente o de definir essas ações. Mas as discussões já em andamento nos últimos meses apontam temas recorrentes, considerados fundamentais para o desenvolvimento sustentável do país. Um deles é a necessidade de ampliar a base em que se apoia nosso desenvolvimento, de utilizar plenamente as vantagens competitivas do Brasil, que são o tamanho de sua população, sua extensão territorial e a riqueza de sua diversidade regional.

Nosso protagonismo internacional ficará necessariamente prejudicado se não garantirmos uma educação de qualidade a toda a nossa população e se não conseguirmos motivar nossos jovens para a ciência e a tecnologia.

Essa formação deve ser diversificada, precisamos formar técnicos, cientistas em várias áreas, engenheiros com visão ampla, que possam acompanhar a evolução acelerada do conhecimento nos dias de hoje. Precisamos também considerar que a inovação, associada às atividades de pesquisa e desenvolvimento nas empresas, é o motor do desenvolvimento no mundo atual.

Nesse sentido, como o senhor avalia o cenário de P&D no país?

No Brasil, a P&D em empresas, embora tenha aumentado nos últimos anos, é ainda muito reduzida. Basta notar a predominância das universidades no registro de patentes. Dessa forma, surge como tema importante a internacionalização do Brasil, entendida como o aumento do protagonismo internacional, com uma ciência que ocupe um lugar de liderança e com empresas globais que possam concorrer no cenário internacional com produtos de alto valor agregado.

Precisamos também de ações claras em relação aos verdadeiros tesouros que temos em nosso país, em particular a Amazônia, cuja exploração sustentável exige uma grande dose de ciência, tecnologia e engenhosidade política. Temos uma oportunidade única e uma posição privilegiada para desenvolver uma “tecnologia tropical”. A mesma consideração vale para a “Amazônia Azul”,  essa vasta faixa de oceano que apresenta vários desafios, entre os quais o pré-sal. Temos também, uma posição privilegiada na área de bio-energia, mas precisamos de ciência e tecnologia da mais alta qualidade para poder aproveitar essas oportunidades.

Por fim, gostaria que o senhor destacasse temas prioritários a serem levados ao debate durante a conferência.

A partir das reuniões que temos tido com vários setores, destacam-se como temas prioritários a educação de qualidade em todos os níveis, o debate sobre novos padrões de desenvolvimento via inovação, o papel da inovação na agenda empresarial, o desenvolvimento da ciência básica, o papel do Brasil no mundo, e o papel da CT&I na redução das desigualdades e na inclusão social. Cada um desses temas, abordados em sessões plenárias, será desdobrado em sessões paralelas, que discutirão detalhadamente áreas estratégicas para o desenvolvimento, e temas como clima e meio ambiente e questões institucionais, relacionadas com a organização do Sistema Nacional de CT&I.

(Isadora Lionço para o Gestão C&T online)