Diretor fala da atuação do INT ao longo de seus 87 anos e ressalta a necessidade de o MCT fortalecer instituições de cunho tecnológico

Seção Entrevista - Entrevistas

Em entrevista exclusiva ao Gestão C&T online, Domingos Manfredi Naveiro, diretor do Instituto Nacional de Tecnologia (INT), entidade associada à ABIPTI, disse que o instituto vem participando do desenvolvimento tecnológico do Brasil ao longo desses 87 anos de forma diferenciada, acompanhando os ciclos de desenvolvimento experimentados pelo país.
Ele destaca o alinhamento estratégico da atuação do instituto com o Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional, resultando na ampliação do número de patentes de valor comercial e de contratos de transferência de tecnologia. “Tem sido fundamental aí o trabalho realizado pelo Núcleo de Inovação Tecnológica do INT que, com o apoio do MCT, vem assegurando a aplicação dos preceitos da Lei de Inovação.”

Naveiro ressalta ainda a necessidade de o MCT fortalecer as suas ações junto a instituições de cunho tecnológico como o INT e diz que a Subsecretaria de Coordenação das Unidades de Pesquisa (SCUP) do ministério desempenha papel de extrema importância na defesa dos interesses e na integração dos institutos do MCT. “Atualmente, temos a frente, em caráter interino, o Dr. Carlos Oití Berbert, que vem dando continuidade ao trabalho do então subsecretário Dr. Luiz Fernando Schettino, pautando suas ações no processo participativo e na pró-atividade entre UP´s.”
Veja, abaixo, na íntegra mais uma entrevista da Seção Impressão:

O INT/MCT, juntamente com o CBPF/MCT, foi apontado, recentemente, como um dos dois centros brasileiros melhor classificados pela avaliação do projeto Gestão do Conhecimento em Centros Públicos de Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil, realizado pela Universidade Nacional Autônoma do México, a Universidade de Concepción do Chile e a PUC-RS. Explique a importância dessa classificação e que diferencial o INT possui para ter tal avaliação?

Em setembro de 2008, o INT foi convidado pela pesquisadora Maria Elizabeth Ritter dos Santos, coordenadora do Escritório de Transferência de Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e do Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec), a participar do referido projeto, que faz parte do Programa de Economia do Conhecimento e é financiado pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Internacional do Canadá.

Os resultados da primeira fase do projeto apontaram o INT e o CBPF [Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas] como os dois centros melhores classificados entre as dez instituições científicas e tecnológicas brasileiras participantes. Considero este resultado muito importante, pois significa o reconhecimento dos nossos esforços em ampliar o processo de proteção e repasse de todo o conhecimento gerado em nossas instituições.

Outro aspecto importante desta classificação é a possibilidade de uma maior aproximação e divulgação do INT junto aos países da América Latina e Caribe, visto que a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociales (Flacso), organizadora do projeto, integra atualmente 17 países, além de contar com 12 unidades acadêmicas.

Quanto ao diferencial que o INT apresenta, ressalto dois pontos: um deles é o forte investimento na atividade de gestão da inovação tecnológica, realizado a partir de meados de 2007 nos diversos grupos de pesquisa da instituição, abrangendo todo o processo de inovação, desde a produção tecnológica visando atender demandas concretas, até o seu posterior repasse para a sociedade.

Outro ponto que merece destaque é o alinhamento estratégico da atuação do instituto com o Plano de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional [Pacti 2007/2010], resultando na ampliação do número de patentes de valor comercial e de contratos de transferência de tecnologia. Tem sido fundamental aí o trabalho realizado pelo Núcleo de Inovação Tecnológica do INT que, com o apoio do MCT, vem assegurando a aplicação dos preceitos da Lei de Inovação.

O INT tem 87 anos. Fale da importância do instituto para o país. Quais são, na opinião do senhor, suas principais ações?

O INT vem participando do desenvolvimento tecnológico do Brasil ao longo desses 87 anos de forma diferenciada, acompanhando os ciclos de desenvolvimento experimentados pelo país. Até a década de 1960, o modelo associado à formação de instituições politécnicas garantia uma importância muito grande e forte inserção do instituto no crescimento econômico, científico e tecnológico nacional. Nesta época, o Brasil contava com dois grandes pólos tecnológicos, o INT instalado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), então capital federal, atuando em âmbito nacional, e o IPT, em São Paulo (SP).

A partir da década de 1960, houve a descentralização da abordagem tecnológica, que levou em conta a amplitude do território brasileiro e a necessidade de levar a todas as regiões o apoio em infra-estrutura tecnológica, promovendo o desenvolvimento regional. A descentralização foi reforçada com o surgimento, também em nível federal, de institutos especializados em áreas temáticas como o CBPF, em física, o Inpe, em pesquisas espaciais, o Impa, na matemática, entre outros.

Dentro do próprio INT, as divisões de Metrologia e de Eletricidade e Medidas Elétricas, geraram uma nova instituição, o Instituto Nacional de Pesos e Medidas (INPM), que mais tarde seria transformado no Inmetro.

Até 1986, o INT estava vinculado ao Ministério da Indústria e Comércio, junto com instituições como o Inmetro e o INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial], tradicionais atores da Tecnologia Industrial Básica [TIB] no Brasil. Com a migração para o recém-criado Ministério da Ciência e Tecnologia, o INT teve sua importância relativizada considerando que se agregou a quase 20 instituições, a sua grande maioria de atuação científica.

Posteriormente, com a implementação dos fundos setoriais, o INT, assim como as demais instituições de cunho tecnológico, ganhou fôlego extra por meio de projetos de porte viabilizando, assim, a modernização de seus laboratórios e o desenvolvimento de pesquisas importantes nas suas áreas de competência, tais como energia, corrosão, química, design e materiais.

A partir do lançamento do Pacti 2007/2010, ocorreu uma maior aproximação interministerial, propiciando a agregação das instituições em grandes temas, como, por exemplo, saúde e energia, além de reforçar uma necessária atuação em rede.

Neste contexto, o INT teve um alinhamento natural da sua atuação com as prioridades estratégicas do Pacti 2007/2010, que pode ser observada pela sólida carteira de projetos ora em curso em áreas como energia (ex.: conservação, biodiesel, bioetanol), saúde (ex.: avaliação e certificação de produtos, desenvolvimento de biomateriais), biotecnologia e nanotecnologia, além de expressiva participação no âmbito do Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec), onde lidera a Rede de Extensão Tecnológica do Estado do Rio de Janeiro e atua em outras redes nas componentes Serviços Tecnológicos e Centros de Inovação.

Além dessa integração ao Pacti, vale também ressaltar a forte inserção do INT no atendimento direto das demandas tecnológicas advindas do setor produtivo, que representa cerca de 300 empresas atendidas por ano.

O INT é um dos institutos ligados ao MCT. Como o senhor vê a situação desses institutos no cenário atual do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação?

Um Sistema Nacional de Inovação é composto por entidades que se relacionam e interagem entre si com o objetivo de produzir, difundir e usar novos conhecimentos que possibilitem o desenvolvimento econômico. Inclui as organizações envolvidas na busca e exploração das inovações como universidades, institutos de pesquisa e empresas.

Neste contexto, os institutos de pesquisa do MCT, como participantes do sistema de inovação, necessitam ampliar a interação entre si, com a formação de redes, e também com todos os agentes produtivos visando implementar todo o ciclo relacionado ao processo de inovação, base para o desenvolvimento econômico e social do país.

No caso do INT, sua característica multidisciplinar e pela vocação em trabalhar concomitantemente em projetos de pesquisa e de prestação de serviços, permite enfrentar com mais força momentos turbulentos como o atual, por meio de uma carteira de projetos bastante vigorosa, tanto junto a órgãos de fomento, como também junto a empresas.

Destaca-se ainda a consolidação do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste, unidade do INT localizada em Pernambuco (Cetene), e do Instituto Nacional do Semi-Árido (Insa), como um movimento propulsor da política de descentralização de investimentos tão necessária ao desenvolvimento equânime da tecnologia nacional.

Vale ressaltar a necessidade do MCT em fortalecer suas ações junto a instituições de cunho tecnológico como o INT, visando maior equilíbrio entre o apoio à ciência e à tecnologia. Por exemplo, é muito comum nos processos de julgamento de propostas de projetos, as equipes executoras serem avaliadas por indicadores claramente ligados à ciência, como artigos em revistas indexadas e teses orientadas, sendo colocado em segundo plano indicadores relacionados à tecnologia, como por exemplo, patentes repassadas por meio de contratos, projetos com empresas, geração de empresas, entre outros.

Este ano, após um bom tempo, foram realizados concursos para as unidades de pesquisa ligadas ao MCT. No INT, como foi e está sendo esse processo? As vagas oferecidas vão conseguir suprir as necessidades da instituição?

Mesmo reconhecendo os esforços do MCT, a realidade é que o INT foi contemplado com um número de vagas bastante aquém de suas necessidades, já que atualmente há uma grande defasagem quantitativa dos nossos quadros, que vem se agravando com as aposentadorias crescentes, sem reposição. Até 2010, cerca de 30% dos servidores do INT poderão se aposentar, ou seja, 75 vagas a menos, que somadas ao déficit já existente faz com que a questão relacionada a recursos humanos seja hoje nosso maior gargalo.

Além do decréscimo do número de servidores, soma-se a descontinuidade que sofremos na formação dos nossos tecnologistas e técnicos já que, sem a reposição necessária inexiste o processo de repasse de conhecimento entre gerações. Hoje, contamos em nossa força de trabalho com um número significativo de bolsistas que após o período legal de suas bolsas não são absorvidos pela instituição e por conta disso são necessários investimentos na formação de novos bolsistas causando descontinuidade e atrasos nas pesquisas e projetos.

Aliado às questões anteriores vale mencionar as crescentes restrições de caráter jurídico administrativo que penalizam sobremaneira o andamento dos projetos de pesquisa e desenvolvimento em função de nivelar o setor de CT&I, que possui demandas e características diferenciadas, com todos aqueles da administração geral.

O MCT possui a Subsecretaria de Coordenação das Unidades de Pesquisa (SCUP), que está desde o final do ano passado sem subsecretário. Como o senhor avalia a atuação desta instância?

A SCUP desempenha papel de extrema importância na defesa dos interesses e na integração dos institutos do MCT. Atualmente, temos a frente, em caráter interino, Carlos Oití Berbert, que vem dando continuidade ao trabalho do então subsecretário Luiz Fernando Schettino, pautando suas ações no processo participativo e na pró-atividade entre UP´s.

Há, de qualquer forma, certa apreensão quanto ao preenchimento da titularidade, já que possíveis mudanças trazem naturalmente a presunção de novas posturas no seu funcionamento e, por conseguinte, na relação com as UP´s.

Foram anunciados os 101 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. Como o senhor, gestor de um instituto, vê esse novo programa e como enxerga o futuro desses novos institutos?

Trata-se de mais um esforço do MCT em canalizar recursos por meio de redes temáticas, constituídas em torno de questões específicas cuja resolução é necessária ao desenvolvimento científico e tecnológico do país. O programa também conta com um aporte considerável de recursos - cerca de R$ 600 milhões, revelando uma tendência em focar-se em temas mais relacionados à ciência básica, tendo como principais atores as universidades.

Tais iniciativas são importantes, porém convém uma reflexão mais aprofundada sob a ótica de dois aspectos: como disse antes, a necessidade do MCT em fortalecer suas ações junto a instituições de cunho tecnológico, visando maior equilíbrio entre o apoio à ciência e à tecnologia; e a criação de novas estruturas que, em muitos casos, enfraquecem iniciativas já existentes devido a duplicidade de esforços com conseqüente impacto nos resultados e atrasos no processo de desenvolvimento tecnológico.

(Fabiana Santos* para o Gestão C&T online)

*Ex-jornalista do Gestão C&T