De espaçonaves e orçamentos, artigo de Mario Eugenio Saturno

Análise de Especialistas - Opinião

Mario Eugenio Saturno é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Artigo publicado no Correio Braziliense no dia 4 de abril.

Que o Brasil apresente algumas dificuldades econômicas, isso é fato. Que o governo ainda não conseguiu elaborar um plano estratégico para crescer mais, mantendo a inflação controlada como aconteceu nos últimos 20 anos, mais evidente impossível. Governo fragilizado por ministros acusados de envolvimento em corrupção. Fraco a ponto de ceder ao lobby das bebidas alcoólicas nos estádios de futebol por ocasião da Copa (que bebam cerveja sem álcool, uai!). E, ainda, resolve cortar no orçamento os recursos da ciência e da educação.

Para um país que caminha para ser neste ano a quinta economia do planeta, cortar 22% do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) não significa cortar a gordura, mas a própria carne. Em valores, isso representa R$ 1,48 bilhão. Já para o Ministério da Educação, o corte foi de R$ 1,93 bilhão ou 5,5%. Realmente, não parece nada inteligente cortar verba de educação ou de ciência e tecnologia. Basta cancelar a loucura que parece ser o trem-bala que ligará Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro e já teremos quase os R$ 55 bilhões de redução de gasto que o governo promoveu para este ano.

Ainda não sei qual é o corte efetivo para a área espacial, mas, a julgar alguns indícios, a coisa não deve ser boa. Embora o ministro Marco Antonio Raupp (MCTI) tenha confirmado o lançamento de quatro satélites até 2015, a sociedade precisa estar atenta. Não estamos na situação de Israel, que, embora pequeno, tenha muitos inimigos, mas não custa lembrar que também temos alguns vizinhos que namoram a insanidade. Estamos na mesma situação das grandes nações continentais: ou conquistam o espaço ou serão dependentes eternamente de serviços e conhecimentos (pode até ocorrer coisa pior). Dessas nações, somos os últimos.

Nas contas do ministro, serão lançados os dois satélites sino-brasileiros, construídos em cooperação com a China, o satélite Amazônia-1, brasileiro, com câmaras (sensores de observação) cuja função principal é monitorar a Amazônia, e o novo satélite geoestacionário de comunicações que servirá ao Programa Nacional de Banda Larga, a ser desenvolvido pela indústria nacional, experiência que no passado não interessou as grandes empresas do setor aeroespacial.

O ministro ainda aponta os voos de qualificação previstos para dois veículos lançadores Cyclone-4, da cooperação com a Ucrânia, que é um foguete que tem capacidade para levar cinco mil quilogramas a uma órbita de 700 km de altura. Esse projeto tem recebido muitas críticas dos cientistas brasileiros, por utilizar tecnologia ultrapassada e perigosa (envenenamento), além de não trazer nenhum conhecimento para o País.

Até o fim do ano a Base de Alcântara, no Maranhão, deve estar pronta para os testes de qualificação. E no último 14 de março foi lançado no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) um Foguete de Treinamento Básico (FTB), visando capacitar a equipe técnica e testar o CLA. Do VLS (Veículo Lançador de Satélites), nenhuma palavra... Está na hora de os estrategistas brasileiros acordarem o governo desse sonho.