O presidente do Grupo Inovação, Paulo Renato Cabral, é o novo entrevistado da Seção Impressão

Seção Entrevista - Entrevistas

Ao completar uma década de atuação, o Grupo Instituto Inovação apresenta resultados que impactaram a realidade de empresas, universidades e governos. Em entrevista ao Gestão C&T online, o presidente Paulo Renato Cabral conta um pouco da história dessa iniciativa que surgiu com a proposta de reduzir a distância entre a academia e o mercado.

“Acredito que tenhamos atuado e continuamos trabalhando com a inovação de uma forma ampla e engajada, aprendendo muito, construindo conhecimento e compartilhando esta experiência com os parceiros e clientes”, afirma. Leia a entrevista na íntegra.

O Instituto Inovação completou dez anos de atividades. Qual é o balanço que o senhor faz dessa década de atuação e o que destacaria nessa trajetória?

O balanço é muito positivo. Acredito que somos uma empresa pioneira no Brasil, pois conseguimos direta e indiretamente influenciar ações e políticas para a inovação. Nestes dez anos foi muito nítida a mudança de mentalidade das empresas e universidades no país. Em nossos primeiros anos de existência percebíamos que o setor empresarial ainda não havia se deparado com a temática da inovação. O ambiente para falar deste tema também não estava estabelecido.

Por outro lado, nas universidades, apesar de todos os problemas de gestão e resistências internas, a temática estava presente, seja em iniciativas institucionais ou individuais que partiam dos grupos de pesquisa ou departamentos.

Quando o instituto começou a ser demandado pelas empresas para inovar?

Em um segundo momento de nossa história, começamos a receber muitas demandas do setor produtivo. Ficou claro então que este tema passou a fazer parte das suas reuniões estratégicas. Acredito que nestes dez anos tenhamos atuado em diversos temas da inovação. Trabalhamos com universidades em projetos de transferência de tecnologia, com empresas em projetos voltados para a construção de estruturas, processos e esta nova cultura.

Com governos, atuamos auxiliando na criação de sistemas de inovação e programas amplos para o fortalecimento da cultura de empreendedorismo inovador em pequenas empresas e municípios. Aceleramos empreendimentos como Ecovec, Rizoflora, Comunip, Nanum e Verti. Investimos em mais de 30 empresas de tecnologia por meio da Inseed, gestora do fundo Criatec. Trabalhamos com a Inovação Aberta de forma prática, com nossos parceiros internacionais. Apoiamos as empresas ensinando a ter o melhor uso da Lei da Inovação e dos incentivos fiscais.

Agora temos iniciado movimentos em direção à criação de novos negócios inovadores. Um deles é o StartupFarm, um programa para empreendedores que querem criar empresas digitais. Também estamos com uma iniciativa de Educação para Inovação e o Empreendedorismo. Ou seja, acredito que tenhamos atuado e continuamos trabalhando com a inovação de uma forma ampla e engajada, aprendendo muito, construindo conhecimento e compartilhando esta experiência com os parceiros e clientes.

O Grupo Instituto Inovação se expandiu nesse período e ampliou o escopo de atividades. Uma das suas frentes é a consultoria Inventta. Como tem sido a sua atuação com centros de pesquisa? Quais são os principais motivos para eles buscarem o apoio da Inventta?

A consultoria Inventta tem atuado com muitos centros de pesquisa e universidades no Brasil, em projetos de transferência de tecnologia das instituições científicas e tecnológicas (ICTs) ou em iniciativas de capacitação dos técnicos para interação com o mercado.

Gosto de destacar algumas ações como o projeto Inova São Paulo, onde pudemos trabalhar com as universidades Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo (USP), Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Federal de São Paulo (Unifesp), Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Além da troca de aprendizado entre as instituições, ficamos muito felizes com a união entre elas para a criação de algo realmente de impacto para o Estado.

Destaco também o trabalho em curso com os núcleos de inovação tecnológica (NITs) do Estado do Ceará. Nos impressionamos com o dinamismo e determinação das pessoas para mudarem a realidade local a partir da inovação. Posso citar também o trabalho que fizemos com vários NITs e instituições no Sul do país, onde vimos que este movimento está muito coeso, contando com estruturas para a inovação já bem estabelecidas.

Acredito que as universidades e NITs nos procuram devido ao nosso histórico, experiência e reputação na área. Um esforço interno que sempre prezamos é a comunicação com a academia. Conhecemos bem as motivações e dramas vividos pelos pesquisadores e procuramos atendê-los no que tange a esses desejos e problemas. Acreditamos também que as empresas ainda buscam muito pouco as universidades para o desenvolvimento de pesquisa ou solução de problemas. Esta relação avançou muito, mas percebo que o Brasil ainda tem espaço para crescer nesta área.

Como as entidades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (EPDIs) podem ser contempladas por esse conceito da Inventta?

Em nosso modelo, acreditamos que mercado, tecnologia, pessoas e negócios devem caminhar juntos. Isso significa que precisam ter alta interação durante o processo. A gestão da inovação, mais do que trazer retornos internos, tem como premissa oferecer resultados de mercado, uma vez que é este que compra a inovação. Por essa razão, é necessário entender muito o consumidor, seus desejos, necessidades futuras e tendências.

Além disso, é preciso ter uma compreensão sobre o negócio atual do empreendimento, como ele pode se adaptar ou se estruturar para estas mudanças. A gestão da inovação tem de trazer impacto para o negócio e seu modelo. Não acreditamos em um formato estático ou pronto, pré-estabelecido, mas em algo que dialogue com a cultura e lógica vigente.

A Inventta também presta consultoria a empresas. Na sua opinião, quais são os principais obstáculos para elas investirem em inovação?

Temos uma carteira bem expressiva, com instituições de grande porte, em todos os setores econômicos. Acredito que a principal barreira hoje seja cultural. Atualmente, o mercado possui vários processos e métodos bastante satisfatórios para a implantação da inovação. O ponto crítico é a cultura empresarial ainda focada nos resultados e balanço do final do ano, assim como uma dificuldade em aceitar e gerir projetos de inovação com alto risco. É claro que a cada dia mais empresas constroem uma cultura favorável à inovação, mas ainda temos muito a avançar para realizar uma mudança de mentalidade que favoreça o tema.

O senhor acredita que leis como a do Bem (11.196/2005) e de Inovação (10.973/2004) têm facilitado esse processo? Por quê?

Sim. Estas leis permitem às empresas tangibilizar a inovação. Como o setor produtivo é movido por resultados, ao percebê-los de forma mais clara, algumas empresas aumentam o seu investimento na área.

O Grupo Inovação também criou a Inseed Investimentos, empresa de gestão de fundos de investimento. Como tem sido a sua atuação?

O trabalho da Inseed remonta às nossas origens de transformar projetos de universidades em empresas. A iniciativa reúne e consolida hoje toda a metodologia de prospecção de oportunidades e aceleração de empresas em estágio nascente que desenvolvemos. Por meio dela, fomos contemplados com o Fundo Criatec, até então o maior de capital semente da América Latina. Ele cumpriu a sua meta de investimentos, basicamente 38 empresas de tecnologia em sete regiões do país.

Nosso próximo desafio é o desinvestimento desses empreendimentos, além do início das operações do Fundo de Inovação em Meio Ambiente (Fima). Com este instrumento vamos investir nas vertentes inovação e sustentabilidade juntos.

Como o senhor analisa o desempenho do país na área de capital semente?

Melhorou muito. Quando começamos em 2002, o capital semente era praticamente inexistente. Fizemos várias apresentações a investidores e grupos que queriam investir em empresas, mas sem sucesso. Por volta de 2004 – 2005 começamos a perceber movimentos como o da Finep e também de investidores privados neste setor.

Nós participamos com outros parceiros da criação do Fundo Novarum, que foi entendido pelo mercado como o primeiro exclusivo de capital semente do país. É claro que investimentos desse tipo já aconteciam há muito tempo, mas sem a estrutura de um fundo. Foi um projeto muito pioneiro e que pode ter inspirado outras ações que vemos hoje no mercado. Acredito que a área de capital semente está bem avançada. Hoje temos fundos em vários Estados como São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

(Bianca Torreão para o Gestão C&T online)